domingo, 7 de junho de 2015

Odor de ápice

Passa por mim vinda da pista de dança e do neon, lábios afetados e o quadril perfeito, o vestido pueril represando um odor de fêmea em seu ápice, mas a aura é turva, o olhar baixo denuncia, a insegurança não te cai bem, minha querida, você nem me conhece, mas o cruzamento das nossas retinas produz chispas, você sabe, penteado à Louise Brooks sobre cílios pintados, você sabe, pele de boneca moldada a Kama Sutra, o que me impede entre a tua miragem e o teu íntimo? Com que máscara te contracenar? A insegurança não me cai bem, minha querida, mas eu já estou em um rumo sem volta, e você senta em uma poltrona e fica com outro cara.




Passando adiante, ou A Balada do Mar Interior

Inspirado em Walt Whitman e Corto Maltese



Um dia

vamos nos encontrar

meu amigo

perdido


Um dia

Você vai nascer

Você vai andar

Crescido


E então

Você vai ser

Muito depois de eu ter

Sido


Pois que estarás

Alheio,

Lindo,

Encardido


Em uma ilha

Deserta

Perene e

Infinita


E será aí

Que vindo calado

Do fundo do Céu

E no topo do Mar


Chegará a ti

Esse whisky

Outrora

Bebido


Na garrafa, porém

Uma outra

Espécie de

Fluído


Meu querido:


Lá dentro estarei

Na borra

No resto

No rótulo lido

Manuscrito esquecido



Mando-me a ti,

Boiando.

Serei teu mapa,

o tesouro escondido.




E talvez algum dia,

você já barbudo, selvagem, curtido,

aceite o desafio,

de achar a mina.


Colhendo cocos, construindo cabana,

assando algum peixe,

talvez você ache

o meu sentido.









Adeus poeta



Adeus, poeta
Hoje te esqueço um pouco
Hoje me mereço


Adeus, poeta
querido véu
Custa-me carregar-te em meu caderno


Adeus, poeta
querido breu
Custa-me aguardar teu pecado


Apesar do
Tanto em
Que me insistes


Bem como o tanto
Em que me enches

Meu amigo carente

Nessas horas de dilúvio

Meu alívio

Meu refúgio






Ossos roídos





Sua vida inteira

Seus brinquedos calados

Sua meia rasgada

Que à noite,

cerzida




E, depois

Já adulto,

Seu desejo de

Público e

Púbicos

Vozes e corpos e copos e ruídos

Cúbicos

Que ocos,

roídos,

Filtram-se a custo

em gráficos

rúnicos


Expulsos do sangue

Moídos

Mudos


Ele pensa que a vida

Se é que ela foi

É falsa puta

Que se oferece

Traduzida


Ele teme que a Glória

Se é que ela é

São letras quebradas

fingidas por ele

Escrever a vida

Num livro qualquer


Mastigar sentidos, promessas

Profanar confissões

e amigos...

amores...

Vomitar, triturar, esquecer


Declará-los histórias

a esmo,

que vão

e vêm

sem sentido.



Ele pensa de si

Se é que ele é

Somente um pretexto

para ser ele mesmo.






Na minha garganta

Queria te dizer esse último “eu te amo” que me ficou na garganta.
Esse que, portanto, acabou ficando por aqui.
Esquecido e delinqüente.
Esse que se acostumou em azucrinar-me ao, de vez em quando,
espreitar-me pelas portas, pingar em minha camisa, ou em algum livro, em alguma fronha.

Espiar-me de alguma foto tua, que surpreendo em gavetas.
Se eu o tivesse te mandado, te expulsado esse último “eu te amo”,
ele teria se libertado, à custa de meu sofrimento, da tua não-retribuição,

Mas, pelo menos,
póstumo,

ele teria se libertado.

Hoje ele e eu moramos aqui sob este teto
Anacrônicos
Ainda te buscando, querida
Ainda te insistindo




Esse último beijo


Esse último beijo não existiu. Ficou entre as salivas da minha garganta. Essa última noite que um dia foi nossa corre agora ao redor do Mundo. Esse cadarço de tênis no chão. Que não consegue se soltar da laje. Esse batom rasgado. Da tua boca até minha lápide. Insone? _o_e.





De volta ao mundo




Infinito vento que sopra firme nos meus pulmões

De volta ao ar puro

Eu mesmo

Respiro-me

Túnel adentro


De volta ao Mundo

O vento batendo cortinas

O Sol na minha retina

O túmulo do meu defunto


Meu defunto, meu defunto

cego, nonagenário, longínquo,

de cinco sentidos que fogem

pra minha mãe,

nadando até seu

útero.




Múmias



Invadido por múmias

Resumido em casulo

Nascido ao avesso

Orbitando no ralo

Presumido num eco

E por isso, solene

Faço e mereço

E disso desperto

Arisco e prenhe

De repente aconteço

quinta-feira, 21 de março de 2013

Piscina de rastros de passos pisados.



Desdobro o dia pelas pontas, por sobre o colchão. Anoiteço às avessas, em busca da manhã no fim do túnel. Quero vê-los todos, comensais do momento, cardápio de almas festivas, tempero de corpos crescidos. Fazia tempo que um ônibus não me deixava aqui. Não que eu não quisesse: a casca do meu ovo nunca deixou o ninho. Mas precisava de um pretexto sentado à mesa, uma noite que custe a gastar, lenha escura queimando em som. E eu faço o papel do violino romântico, mesmo que não ele não ressoe para fora de mim.

Hoje quero ser feliz com os meus olhos tristes, em ritmo de tartaruga de mais de 200 anos, açúcar mascavo nas pontas dos cílios postiços. Hoje eu quero um anjo cego embebido em mel, com os olhos furados e cobertos em gaze sangrenta sendo arrastado dentro de um carrinho de supermercado no meio do engarrafamento.

Hoje eu quero você, esquina de rua, Disneylândia, querida, deserto de multidões. Lapa, minha Lapa querida.

Que bom morrer um pouco a cada dia junto contigo, velha conhecida.

Quando chego, já estás bebendo através de mil bocas, me esperando envelhecida de algum boteco. E aí me convidas, Lapa, me convidas à mesa, e aí sou só eu, enganado pela tua invasão de mil amigos, pela purpurina de Deus na Terra, teus cigarros que eu respiro e bebo, teus sorrisos que me ferem. Te pego em uma combe quando já são 7 pras 4 e te arrasto pelo resto da cidade, Lapa, e depois, piscina de rastros de passos pisados, brincas pingente dentro dos meus sonhos, vomitando a tua noite no meu travesseiro.

O doce mergulha e o gástrico ronrona


Linda primavera, te começo contra a impaciência pra me livrar de tudo o que me faz símbolo, soldando-te em meu corpo de carne e osso e te organizando enquanto dias, passageiros, finitos, até mesmo feios, mas que mudem de cor e de clima, pelo menos.

Quando sinto que fermentas, Primavera, o doce mergulha e o gástrico ronrona, sei que acordo no meio de ti, o concreto, a sujeira, os berros e a fumaça confusos em te terem como cenário, Primavera, centrífugo e centrífugo, és vento que forjas a curva do Sol, Primavera, és um bom pretexto para a cor da matéria. E da miséria.

O único público para o engodo das sílabas



Saxofones imitam as locomotivas dos trens e os apitos das fábricas, guitarras imitam o barulho dos revólveres sendo disparados, o canto lírico está para o uivo dos lobos como o diamante está para o carvão, cordas de alaúde plangidas por dedos talvez sejam apenas por si e para si, mera matemática invisível, como adivinhou o sábio de Samos, mas eu sinto palavras por trás, palavras sem sílaba, tonais, esquivas, mas prolixas, verborrágicas, chamativas, arautos. Todas, todas as palavras meio fálicas, todas as palavras meio arma. Todas instrumentos da música, com as mesmas formas, vagamentes embaçadas, das pedras e espadas e genitálias que usamos para matar, quebrar e violar.

Mas os únicos estilhaços que as clavas causam, o único público para o engodo das notas, escalas e claves é o ar.

Música...

Talvez, na pré-história, foste mais perigosa que o fogo.

Afinal, tu voas, tu penetras por tudo... e és invisível.

Não lembro se fui eu que te reconheci, fisgando-te do meio da fala, ou foste tu, fisgando-me como os peixes pairando em cima de mim, os móbiles do meu berçário. Sei que, por ti, aceitei o anzol, sai do aquário, criei patas, joguei fora os brânquios, e encarei o oxigênio... e a tua ressonância nele.

Música, que começaste como consolo, e depois mergulhaste no meu metabolismo.

Música, que te desvendei nas tuas mais de quinhentas formas, do Santour ao Són, do Palembang ao Blues, do Shamisen à Zamba. Um deslocamento de ar pode ser um tiro, um berro, uma fração dos sonhos de Debussy. Uma britadeira, ou um acorde de Schoenberg. Pode ser a voz de John, de Paul, de Atahualpa. 


Música, não enquanto beleza. A beleza é um estupro dos homens na ordem das coisas.
Música enquanto Eterna.
Eterna que não corrói, eterna que não quebra.
Música, que acaba e permanece. O Universo sendo rasgado.


Quando deixaste de ser signo, e passaste a ser livre?

Quando deixaste de ser um reles alerta contra predadores e inimigos, e te vestiste de amor... e de dor?

Ou somos nós, Música, os humanos, que nos iludimos? A curva da tua onda de som refletindo na nossa angústia, e já não podemos saber quando nós terminamos e tu começas?

terça-feira, 10 de julho de 2012

A criação é continua. Ela não simplesmente abre e fecha portas. Ela nem tem portas. Ela tira e devolve tudo o que nós guardamos para nós mesmos. A criação grita e é muda ao mesmo tempo.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011



Esses dias comecei a olhar fotos de velhos amigos no Facebook. Nos álbuns de fotos antigas, reconhecia-os como eles eram na época em que nós convivíamos mais.

O que mais me incomodou foi o fato de que na maioria das fotos eu não estava. Eu nunca estava.

domingo, 24 de julho de 2011

Ficando loucamente sóbrio em uma casa em Laranjeiras, e pensando que, a partir de uma certa idade, todos têm seus momentos de "27 anos". Então, que diferença faz?

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Calmo em sua aparência

Me olhando que nem um menino

Piolhento, vestido em farrapos

Desfiro-lhe um soco na boca



Ao contrário do que se pensava

Isso o torna maior

Seu brilho ofusca meu elmo

Minha culpa ganhando cor


Seu nome já nem mais me lembro

Ahmed, Pixote ou Judas

Só lembro seu rosto vermelho

De sangue e de podres tomates


Amarro a cruz em suas costas

Brutus chutando sua bunda

Valerius os seus culhões

E eu tentando sorrir

quarta-feira, 8 de junho de 2011

De antigos e modernos


Para mim, as coisas já se inverteram faz um bom tempo. O Rio Antigo voltou a ser o Rio Moderno, e o Rio Moderno se tornou o novo Rio Antigo.

As ruas da Lapa, de Santa Tereza, da Cinelândia, da Praça Mauá e da Praça Tiradentes já são, há pelo menos 10 anos, se não mais, as referências da nova geração.

Logo que eu cheguei no Rio, uma das coisas que mais me impressionou foi o estado de total descaso que se encontrava e se encontra a Princesinha do Mar Copacabana.

Copacabana que foi de Tom, Vinícius, Edu Lobo, Chico e até Cazuza para meus olhos não passava (e não passa!) de um bairro com restaurantes bregas e muito mau gosto.

Ipanema e Leblon estão um pouco melhores (porque já foram planejados em uma época posterior), mas mesmo assim, tudo ali me remete àqueles seriados e novelas jovens da Globo dos Anos 70, 80 e 90, tais como Armação Ilimitada, Vamp, Top Model, sem falar nos filmes Menino do Rio e Garota Dourada.

A fase "bossa-novista" passou, a fase "rato de praia" passou, e já faz uns 10 anos que o Rio de Janeiro vive sua nova fase: a de "revival" do samba, do choro, da cachaça em boteco de esquina.

Mas e daí?

Pra mim, a nostalgia continua sentada à mesa. Acho que o meu mal foi ter crescido em um lugar distante com mil referências culturais vinculdas à esta cidade onde hoje vivo.

Pedaços do Rio de Janeiro foram mandados para mim, desde a minha mais tenra infância, e foi a partir deles que eu construí toda a minha expectativa do que hoje é passado, presente e futuro.

Eu me lembro de um hotel onde fiquei hospedado por três dias, com a minha mãe e irmã, esperando um avião que nos pudesse levar para Miami.

Pela minha memória associada às impressões atuais, o hotel ficava no Leme ou em Copacabana, com certeza.

Tinha 12 anos e minha mãe não me deixava sair na rua, por causa do imenso perigo que o Rio de Janeiro representava. Saímos só para comer em restaurantes, e depois, para irmos até o Galeão.

Na frente do hotel, tinha um daqueles típicos botequinhos de ruas transversais de Copacabana. Com as cachaças, os arenques, o galo português, e tudo o mais.

Aquele botequinho é, para mim e até hoje, muito mais antigo que qualquer boteco da Lapa ou do Centro do Rio de Janeiro.

E isso, por uma razão muito simples.

Aquele boteco veio antes na minha vida.